*Por Cristiano Oliveira
Durante anos, as provas de conceito, conhecidas pela sigla POC, ocuparam um espaço quase obrigatório nas estratégias de inovação corporativa. A lógica parecia razoável, antes de investir em escala, as empresas testariam novas tecnologias em ambientes controlados, reduzindo riscos e acelerando o aprendizado. Com o avanço da inteligência artificial generativa, porém, tornou-se mais fácil criar pilotos em pouco tempo, enquanto aumentou a cobrança por eficiência e retorno sobre os investimentos.
Nesse cenário, cresce a fadiga com iniciativas que consomem orçamento e mobilizam equipes, mas não avançam para a operação. Muitas organizações acumularam projetos tecnicamente interessantes, porém pouco conectados às prioridades do negócio. Quando faltam indicadores definidos, um responsável executivo e critérios de continuidade, a prova de conceito perde relevância justamente no momento em que precisa disputar recursos e patrocínio interno.
Uma POC pouco estruturada costuma apresentar sinais recorrentes. Normalmente começa sem uma hipótese de valor clara, não parte de uma necessidade concreta da operação e deixa para etapas posteriores discussões sobre segurança, integração, custo total e capacidade de escala. O experimento pode até demonstrar que determinada tecnologia funciona, mas não esclarece se sua adoção faz sentido para a organização.
Esse tipo de iniciativa frequentemente avança por meio de apresentações, demonstrações e entusiasmo inicial. A dificuldade aparece quando o projeto precisa justificar uma nova rodada de investimento, integrar-se aos sistemas existentes ou assumir responsabilidades operacionais. Sem parâmetros objetivos, a avaliação passa a depender de percepções individuais, o que aumenta o risco de prolongar testes sem perspectiva real de implementação.
Um levantamento realizado pela IDC em parceria com a Lenovo mostra que 88% dos projetos piloto de IA não chegam à produção em larga escala. Segundo o estudo, para cada 33 provas de conceito iniciadas, apenas quatro avançam para ambientes produtivos. O dado mostra que a distância entre testar uma tecnologia e incorporá-la à operação ainda é significativa.
Em um ambiente de pressão por eficiência, iniciativas de inovação sem critérios de avaliação passam a ser percebidas como despesas de difícil justificativa. Para mitigar isso, os executivos precisam avaliar se a inovação resolve um problema relevante, se pode ser operada com segurança e se apresenta retorno compatível com o investimento necessário para sua implantação.
Por isso, a prova de conceito deve começar com uma hipótese vinculada a indicadores concretos. O valor esperado pode estar associado à redução do custo operacional, ao aumento da produtividade, à mitigação de riscos, à geração de receita ou à aceleração de uma etapa crítica. Mais importante do que escolher um único indicador é estabelecer previamente como o resultado será medido e qual patamar justificará um investimento em escala.
Também é preciso estabelecer previamente o que acontecerá ao término do ciclo. Uma POC bem planejada indica as condições para avançar, revisar ou interromper a iniciativa. Essa definição evita que projetos permaneçam indefinidamente em avaliação e permite direcionar recursos para oportunidades com maior potencial.
Transformar uma POC em retorno sobre investimento exige tratar o teste como um instrumento de decisão, e não só como uma demonstração técnica. Isso envolve método e participação das áreas de negócio, com clareza sobre os resultados esperados. Iniciativas consistentes começam com um problema bem delimitado, hipóteses verificáveis e critérios objetivos de sucesso. Desde a fase inicial, também é importante considerar fatores como a integração com sistemas existentes, segurança, custo total e o esforço necessário para expansão.
Essa abordagem altera a relação entre tecnologia e negócio, uma vez que a equipe técnica contribui com a avaliação de viabilidade, arquitetura e riscos, enquanto as áreas responsáveis pela operação participam da definição do problema, dos indicadores e das condições para continuidade. A responsabilidade pelo resultado deixa de ficar concentrada em uma única área.
Tenho observado esse movimento levar empresas a adotar ciclos mais curtos de diagnóstico, entrega e avaliação. A intenção é reduzir o intervalo entre a identificação de uma oportunidade e a decisão sobre seu futuro, sempre com base em evidências. A organização começa a procurar respostas sobre viabilidade técnica, econômica e operacional, em vez de prolongar experimentos apenas para manter uma agenda de inovação ativa.
Nesse modelo, encerrar uma iniciativa também pode representar um resultado positivo. Quando o teste não comprova valor, registrar o aprendizado e interromper o projeto evita novos desperdícios. Se os resultados confirmam a hipótese inicial, a empresa ganha melhores condições para planejar a expansão, definir responsabilidades e estabelecer controles compatíveis com a operação.
A tendência é que as organizações se tornem cada vez mais seletivas na escolha de seus experimentos. O espaço para testar novas tecnologias continuará existindo, mas estará associado a problemas concretos, indicadores verificáveis e capacidade de gerar conhecimento útil para o negócio.
O amadurecimento dessa prática passa por uma mudança simples, mas relevante: uma POC não deveria terminar apenas com a constatação de que determinada tecnologia funciona. Ela deveria produzir evidências suficientes para definir onde investir, o que ajustar e o que interromper.
Afinal, em um ambiente de maior disciplina sobre investimentos em tecnologia, provar que algo funciona é apenas o começo. É preciso demonstrar que vale a pena.
Matéria originalmente publicada no portal Meio e Negócio em 26/10/2026
2026 TQI - Todos os direitos reservados