Durante anos, o debate sobre tecnologia no setor financeiro girou em torno de uma única pergunta: quando modernizar? No TQI Summit 2026, essa pergunta simplesmente perdeu o lugar.
O que emergiu das conversas entre CEOs, conselheiros e líderes de tecnologia foi algo mais direto. E menos confortável: o maior risco hoje não está na tecnologia em si. Está na incapacidade de decidir.
Nomes como Gilson Finkelsztain (B3), Maurício Minas (Bradesco, Bradespar, B3 e Odontoprev), Felix Cardamone (Banco Bmg), Mary Ballesta (Santander), Wanderley Baccala (Porto Bank), Wallace Jagiello (Bradesco), Luiz Freitas (Tribanco), Ricardo Coelho de Sousa (Itaú), Alberto Delgado (Volkswagen Financial Services) e Mário Anseloni (TQI), entre outros, estiveram presentes.

Existe uma crença amplamente aceita de que inovar é, por definição, positivo. O Summit trouxe um contraponto relevante a isso.
Na prática, inovação sem um problema claro para resolver gera mais custo do que valor. O setor financeiro vive uma combinação delicada: pressão por modernização, avanço regulatório acelerado e complexidade operacional crescente. Nesse ambiente, acelerar sem critério pode sobrecarregar sistemas, ampliar risco regulatório e fragmentar arquiteturas que levaram anos para ser construídas.
A pergunta que passou a guiar as melhores decisões é simples: qual problema de negócio essa iniciativa resolve? Sem essa resposta, inovação vira ruído.

Um dos pontos que mais mudou de perspectiva ao longo do evento foi o olhar sobre sistemas legados.
Por muito tempo, legado foi tratado como sinônimo de problema. O que ficou evidente nas discussões é que ele carrega algo que não se replica facilmente: as regras de negócio mais sofisticadas, o histórico de decisões críticas e décadas de inteligência operacional acumulada. A discussão relevante não é mais “substituir ou manter”, mas como evoluir sem destruir o que sustenta o negócio hoje?
Uma das mudanças mais significativas está na forma de executar. Modernização deixou de ser um grande programa com início, meio e fim e passou a ser tratada como gestão contínua de portfólio.
Na prática, isso significa priorizar com base em impacto real, trabalhar dentro de restrições reais de recurso, capturar eficiências para financiar a próxima rodada de evolução e ter disciplina para interromper iniciativas que não entregam.
A lógica do “big bang” perde espaço para um modelo mais pragmático: refatorar quando faz sentido, reescrever quando necessário, manter quando é mais eficiente. Menos discurso de transformação. Mais decisão executiva.
Com o avanço da inteligência artificial, um novo risco ganhou destaque nas discussões. Mais sutil que os anteriores, mas igualmente perigoso: automatizar processos que já são ineficientes.
IA não corrige problemas estruturais. Ela os amplifica. Por isso, uma das recomendações mais recorrentes foi revisar processos antes de automatizar, começar por problemas bem delimitados, medir impacto rapidamente e escalar apenas o que demonstrou funcionar. O ponto não é implementar IA. É saber onde ela realmente faz sentido.
Ao mesmo tempo, há uma mudança em curso que já não tem volta: a inteligência artificial está deixando de ser uma ferramenta e passando a ser infraestrutura de decisão.
Com a evolução para agentes que executam e orquestram processos de forma autônoma, o impacto vai além de ganhos de produtividade. Estamos falando de sistemas que influenciam decisões de crédito, alteram jornadas de clientes e redefinem eficiência operacional em escala. Isso traz uma exigência clara: governança. Controle de custos, definição de guardrails e capacidade de explicação não são mais diferenciais competitivos. São pré-requisitos.
Talvez o ponto mais contundente do evento seja este.
O custo de adiar a modernização não aparece em uma linha isolada do orçamento, se manifesta de forma difusa: na velocidade menor para lançar produtos, no tempo maior de resposta a incidentes, na dificuldade de atrair talentos, no crescimento silencioso do custo operacional e, principalmente, na receita que nunca chega a existir. É o custo de oportunidade. E ele cresce em silêncio, trimestre após trimestre.
Outro consenso que emergiu com clareza: não existe um caminho único.
A discussão passou de “mainframe versus cloud” para uma pergunta mais estratégica: qual é o papel de cada ambiente dentro da arquitetura da organização? O modelo híbrido se consolida como o mais realista.
Sistemas críticos e estáveis permanecem onde fazem sentido, novas aplicações nascem em arquiteturas modernas, e a integração entre esses mundos passa a ser o verdadeiro desafio. Migrar por moda pode custar caro. Não migrar por inércia também.
Se há um ponto de alinhamento total entre os participantes, é a cibersegurança.
Com o avanço da IA, as ameaças evoluem na mesma velocidade: ataques mais sofisticados, engenharia social mais convincente, novas vulnerabilidades em ecossistemas distribuídos. E aqui emerge uma mudança importante de mentalidade: segurança passou a ser uma responsabilidade compartilhada. A colaboração entre instituições não é mais opcional. Ela é parte da proteção do sistema como um todo.

Os relatos mais práticos do evento trouxeram um alerta direto: transformações mal planejadas não falham devagar. Elas falham rápido. E com impacto direto na operação.
Casos de degradação de sistemas por dias, riscos mal mapeados e ausência de planos de contingência reforçam que o desafio não é apenas tecnológico, é de execução. E isso exige envolvimento real do conselho, clareza sobre os riscos assumidos, planos de continuidade testados e governança ativa ao longo de todo o processo.

Depois de todos os painéis, uma provocação resume bem o momento do setor:
Quanto da sua capacidade de crescer hoje está limitada por decisões que você ainda não tomou?
Neste cenário, toda decisão cobra seu preço: adiar a modernização, implementar IA sem preparo ou manter o legado sem estratégia. Nenhuma é neutra.
O futuro dos sistemas críticos não será definido por uma tecnologia específica. Ele será definido pela capacidade das organizações de priorizar com clareza, executar com disciplina e equilibrar risco e inovação de forma consciente.
Afinal, o maior custo hoje não está no legado. Está em adiar decisões que já deveriam ter sido tomadas.
2026 TQI - Todos os direitos reservados